sexta-feira, 26 de setembro de 2014

POCado

A minha vida basicamente  é andar em constante alerta à procura de todas as falhas  e responsabilizar-me por elas.
É assim que um POCado se vê! Um dia é o medo do cancro, no outro dia o medo da hepatite, o medo do HIV, o medo da contaminação de um produto químico, de uma salmonela, de uma toxina, de uma bactéria...ui ui a lista continuava mas a verdade é que acaba sempre por nos condicionar as tarefas mais rotineiras como cozinhar para a família ou até mesmo o simples exercício da nossa profissão. Fui profissionalmente treinada para procurar e pensar em "bichos" e até funcionou durante muito tempo...fui uma excelente profissional que conseguia meter as maos à obra e não recusar trabalho, mas tudo mudou no dia em que me apercebi que poderia traze-los para casa. Actualmente todos os dia vivo rodeada durante oito a nove horas pelos bichos que se transformam em fantasmas quando chego a casa. 
Como é que se diz a alguém que passa o dia a mexer em "bichos" que não os  trazemos para casa  agarrados a nós...nao se diz...age-se e age-se da pior maneira possível. Não se toca em nada, não se cozinha, não se bebe, não se come...somos prisioneiros dentro da nossa casa. Se vivêssemos sozinhos tudo isto se tornaria mais fácil mas quando vivemos em família as coisas torna-se mais difíceis, ninguém compreende os nosso fantasmas, os nossos receios, medos e angustias.
O meu dia a dia desde que chego a casa resume-se a tomar banho esperar que paguem me prepare a comida e tentar passar o mais despercebida possível sem ter que manusear ou tocar em alguém.  Se estou mais stressada o mais provável é que se torne num ataque de pânico porque a cabeça continua a trabalhar e a rever mentalmente o dia à procura da mínima falha e da mínima asneira que vai resultar em tragédia. Procuro as combinações químicas mais rocambolescas entre tudo o que possa e o que não possa reagir, afinal nunca há certezas de nada. Espero os meses e os dias até se revelar alguma doença, registo mentalmente na minha cabeça todas as datas em surgiram situações de risco.
Tudo isto podia ser evitado se simplesmente abandonasse o meu trabalho...mas aí seria bater no fundo porque por muito no fundo que eu esteja, acredito que ainda existe algo ainda mais fundo. Não sei fazer mais nada, investi toda a minha vida em estudos e mais estudos e mais estudos futeis que em nada me valeram a não ser engordar o currículo de outras pessoas. Sinto-me usada por minha culpa por me ter deixado ser usada. Estou chateada comigo, por não ter sido mais madura, sinto que não cresci continuei sempre a ser a menina que estava sempre a estudar. Sentia-me no topo, e agora? sinto-me como?

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