Descobrir a criança que há em nós.
Foi sempre uma expressão que ouvi por aí mas talvez nunca tenha pensado muito a sério no seu significado. Sem me querer vitimizar ou tentar arranjar uma desculpa para justificar a minha personalidade, ou os desvios desta, não tenho muita consciência de ter sido criança e de ter podido brincar. Lembro-me muito de estar sozinha, não ter amigos para brincar. Nunca tive uma amiga confidente e ter um namorado problemático em nada me ajudou.
Tudo isto acabou por ir moldando a minha vida, reconheço isso, mas reverter o processo pode ser mais longo do que o próprio processo natural de degradação.
Seria simples poder reverter os danos causados durante esses anos...brincar sem preconceitos, sem medo de julgar ou ser julgada, sem convicções, crenças ou descrencas, brincar apenas por brincar com a inocência de uma criança.
Sinto-me frágil, apesar de ser adulta e não me lembrar de ter sido criança, por incrível que pareça não cresci. Não me ensinaram a crescer mas partiram do pressuposto que eu devia saber como é que devia fazer isso. A verdade é essa, não fui ensinada a crescer tive de aprender sozinha e descobrir os erros da pior maneira...cometendo-os. nunca ninguém me preparou para vida, apenas para as obrigações da vida, estudar e ir trabalhar. A única coisa que me ensinaram foi que tinha de tirar um curso superior porque senão acabava assim ou assado, mas na realidade nunca me deram outra alternativa. Vida social era algo que não era compatível com estudos.
Ver a recriminação nos outros era algo familiar ou não tivesse eu que me tornar na miúda rebelde para poder sair à tarde ou ir a algum lado...sempre que saia de casa parecia estar a cometer um crime. Por onde andava tinha de andar camuflada para ninguém me ver...para quê? Em que é que isto contribuiu para a minha vida.
Sinto rancor e não posso deixar de o sentir. Não sei se alguma vez o deixarei de sentir...principalmente porque nunca ninguém reconheceu que o que me fizeram não foi correto, pelo contrário tenho a certeza que o voltariam a fazer. As perseguições, a recriminação, a reprovação...afinal estava apenas a tentar ser uma jovem. Talvez por nunca me terem educado para a vida deviam estar preocupados que na minha primeira saída eu chegasse a casa grávida, bêbeda, drogada, casada e não sei que mais...
Tendo em conta como cresci até se calhar não me posso considerar muito má pessoa...completamente negligenciada a nível psicológico sem uma palavra de carinho...